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Sigo andando. Pensando.

Sigo andando. Pensando.

Desafios, em geral, são comigo mesma.

Sou observadora ambulante e passeante. Caminho entre arquitetura, literatura, envelhecimento, tecnologias, descobertas e incoerências. Um pouco de tudo. Nada fixo. Sempre tentando sustentar um olhar crítico. Às vezes poético. Muitas vezes ingênuo. Quase sempre perplexo.

Tenho menos certezas do que gostaria e mais perguntas do que o confortável.
E talvez isso baste.

De nome civil, Elenara. O cartório afirma que atravessei 68 primaveras, verões e outonos neste ano da graça de 2026.  Longos invernos também. Não discuto com o cartório. Discuto com o tempo. Posso ser isso nas colunas. Ou não. Mas sigo perambulando. E pensando.

Começo sempre antes do pensamento organizado.
No corpo em deslocamento.
No olhar que ainda não sabe no que vai pousar.
No tempo que se impõe no ritmo dos passos.

Ambulando Cogitare é isso.
Pensar enquanto se anda. Pensar porque se anda.

Não é método acadêmico. É prática de vida.
Foi andando que aprendi a observar a cidade sem a pressa dos diagnósticos prontos. Foi andando que entendi que o envelhecer não acontece de repente, mas se infiltra no cotidiano. Nos degraus mal resolvidos. Nos bancos ausentes. Nas esperas longas demais.

Andar sempre foi, para mim, um gesto de escuta.
Escuta do corpo.
Escuta do espaço.
Escuta do tempo.

Mas também escuto as tecnologias. Não como promessa, nem como ameaça. Escuto com curiosidade e desconfiança. Uso. Testo. Exploro. Gosto. Questiono. Porque tecnologia, sem senso crítico, vira ruído. E com senso crítico, pode virar cuidado, acesso, permanência.

Esta coluna nasce desse lugar intermediário entre o passo e a ideia.
Entre a literatura que me ensinou a prestar atenção e a arquitetura que me obrigou a assumir responsabilidade. Entre o envelhecer vivido e o projetado. Entre a ética do cuidado e a política do cotidiano, onde decisões aparentemente pequenas produzem efeitos profundos sobre quem permanece.

Ambulando Cogitare não pretende ensinar.
Pretende acompanhar.

São textos que caminham. Às vezes tropeçam. Às vezes param. Às vezes retornam. Porque pensar a cidade, o envelhecer, a tecnologia e a vida real exige coerência, mas também humildade diante do que ainda não sabemos.

Se há um fio que sustenta estas reflexões, ele é simples e exigente:
a cidade revela, todos os dias, como escolhemos tratar o tempo humano.

E talvez pensar andando, mesmo entre telas, algoritmos e calçadas imperfeitas, seja uma forma de não esquecer disso.

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