ou: O Bilionário que Descobriu que Dinheiro Compra Tudo, Menos Consistência
por Gael Libório
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Era uma vez um menino que queria ir a Marte.
Como Marte ficava longe, ele decidiu primeiro comprar a Terra. Comprou carros elétricos. Comprou foguetes. Comprou um passarinho azul que vivia na internet e o transformou numa letra do alfabeto. Comprou a atenção do mundo inteiro, que é a moeda mais valiosa do século XXI.
E então, em 2024, Elão Foguetinho decidiu comprar algo que nunca tinha comprado antes: um presidente.
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Elão Foguetinho não é um nome de batismo — é um destino. O homem mais rico do planeta, dono da Tesla, da SpaceX, do X (antigo Twitter), e de uma coleção de opiniões que muda conforme o vento, percebeu em algum momento que foguetes não bastavam. Foguetes vão para o espaço, mas o espaço não vota. O espaço não aprova subsídios. O espaço não persegue seus inimigos.
Para isso, ele precisava de Washington.
E Washington, em 2024, tinha um candidato perfeito: Donaldo Trompa, o magnata alaranjado que também gostava de se ver como disruptor, também desprezava as regras, também achava que o mundo era um reality show à espera de um protagonista mais carismático.
Elão despejou duzentos e cinquenta milhões de dólares na campanha de Trompa. Subiu no palco com ele. Pulou como criança em comício. Ganhou, de presente, a chefia de um órgão inventado especialmente para ele: o Departamento de Eficiência Governamental, que os pindolândicos, com seu amor por siglas, batizaram de DOGE — como a criptomoeda do cachorro, porque no governo Trompa até a burocracia precisa de meme.
“Nasce uma estrela!”, declarou Trompa, apresentando Elão em Mar-a-Lago.
A estrela brilhou por exatos 130 dias.
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O DOGE prometia cortar dois trilhões de dólares em gastos federais. Dois trilhões. O número era tão grande que parecia inventado — e talvez fosse. Elão apareceu na Conferência de Ação Política Conservadora empunhando uma motosserra vermelha, daquelas de filme de terror, e anunciou: “Esta é a motosserra da burocracia.”
A plateia aplaudiu. A internet viralizou. E os funcionários públicos pindolândicos começaram a receber e-mails de demissão em massa, assinados por robôs, sem explicação nem apelação.
Elão chamou isso de “eficiência”.
Os críticos chamaram de outras coisas.
No fim das contas, o DOGE alegou ter economizado 175 bilhões de dólares — menos de dez por cento da meta original, e um número que ninguém conseguiu verificar de forma independente. A motosserra, ao que parece, fazia mais barulho do que corte.
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A lua de mel durou até junho.
Em 3 de junho de 2025, Elão Foguetinho foi ao X — a rede social que ele mesmo comprou — e escreveu: “Sinto muito, mas não aguento mais.”
O motivo imediato era um projeto de lei que Trompa queria aprovar no Congresso. Elão queria certas políticas incluídas; Trompa disse não. O bilionário, que não estava acostumado a ouvir “não” de ninguém desde que aprendeu a falar, reagiu da forma mais madura possível: acusou o presidente da Pindolândia do Norte de estar no “arquivo de Epstein”.
Jeffrey Epstein, para quem não lembra, era o criminoso sexual que conhecia todo mundo em Nova York e morreu de forma conveniente numa cela federal. Seu nome virou sinônimo de segredos podres da elite pindolândica. E Elão, num acesso de fúria digital, jogou esse nome na cara de Trompa como quem joga drink em festa de gala.
Trompa respondeu ameaçando “rescindir os subsídios e contratos governamentais” de Elão.
O bromance virou rancor. O rancor virou guerra de tweets. A guerra de tweets virou material para comediantes do mundo inteiro.
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Enquanto os dois bilionários brigavam como crianças num tanque de areia, a Tesla — a empresa que fez de Elão o homem mais rico do mundo — derretia.
As vendas de novembro caíram 23%. A Cybertruck, aquele carro que parece ter sido desenhado por uma criança de seis anos com régua e lápis, vendeu míseras 5.385 unidades no terceiro trimestre — uma queda de 62% em relação ao ano anterior. Os consumidores, ao que parece, não queriam associar seus carros elétricos a um bilionário que passava os dias brigando com políticos no Twitter.
Elão, sempre rápido em encontrar culpados, atribuiu as quedas a “sabotagem da esquerda”.
A esquerda, aparentemente, também era responsável pela neve, pelo trânsito e pela demora na entrega de encomendas.
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Mas eis que, como em toda boa novela, veio a reconciliação.
No fim de 2025, após meses de silêncio gélido, Elão e Trompa foram vistos jantando juntos em Mar-a-Lago. As fontes falam em “clima amigável”. Os observadores falam em “necessidade mútua”. Os cínicos falam em “dinheiro”.
Porque Elão, apesar de tudo, ainda tem dinheiro. Muito dinheiro. E 2026 é ano de eleições legislativas na Pindolândia. O Partido Republicano precisa manter a maioria no Congresso. E manter maiorias, na política pindolândica, custa caro.
Elão voltou a assinar cheques. Trompa voltou a elogiar a Tesla. E a “grande e bela separação” foi discretamente arquivada, como se nunca tivesse acontecido.
“Eu gosto muito do Elão”, disse Trompa numa coletiva de imprensa, com aquele sorriso de quem sabe exatamente quanto custou o elogio. “Ele realmente ajudou durante a eleição com seu apoio.”
Tradução: ele pagou, e quem paga escolhe a música.
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Há algo de profundamente revelador nessa história.
Elão Foguetinho não é político. Não foi eleito para nada. Não responde a nenhum eleitor. É, simplesmente, um homem muito rico que decidiu que riqueza deveria se converter em poder — e descobriu que, na Pindolândia do Norte, essa conversão é perfeitamente legal.
Ele pode financiar campanhas. Pode demitir funcionários públicos. Pode acusar presidentes de crimes e voltar a jantar com eles meses depois. Pode criar um “departamento de eficiência” que não precisa prestar contas a ninguém. Pode ameaçar criar um partido próprio — o “Partido da América” — e depois desistir quando o vento muda.
Pode tudo. Porque tem dinheiro.
E o sistema não apenas permite — o sistema celebra. “Nasce uma estrela!”, disse Trompa. E a estrela nasceu, brilhou, explodiu, e nasceu de novo. Porque estrelas bilionárias não morrem; apenas reestruturam.
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Na Bruzundanga, os fãs de Elão — e eles existem, numerosos e fervorosos — o chamam de “gênio”. Dizem que ele vai salvar a humanidade com carros elétricos, foguetes reutilizáveis e chips cerebrais. Dizem que os críticos são invejosos, esquerdistas, ou ambos.
O que eles não dizem é que o gênio prometeu dois trilhões e entregou cento e setenta e cinco bilhões não auditados. Não dizem que a motosserra cortou programas de assistência enquanto preservava subsídios às próprias empresas do gênio. Não dizem que o homem que quer colonizar Marte não consegue passar seis meses sem brigar com o único aliado político que tem.
Talvez porque, no fim das contas, gênio e consistência são coisas diferentes.
E Elão Foguetinho, como todo foguete, é muito bom em subir — e ainda melhor em fazer barulho.
O pouso suave, esse, ele ainda não dominou.
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Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com bilionários que confundem o planeta com parque de diversões particular é mera coincidência tributária.

