Onde 6 bilhões de reais evaporaram de 4 milhões de aposentados e viraram Ferrari, McLaren de Senna e esculturas eróticas
por Gael Liborio Austral
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Há fraudes que insultam a inteligência do fraudado. E há fraudes que insultam a inteligência de todos, inclusive do fraudador — que parece não acreditar na própria sorte.
A Farra do Instituto Nunca Sobra pertence à segunda categoria.
Entre 2019 e 2024, um consórcio de associações, sindicatos, lobistas, advogados-celebridade e servidores públicos operou o que a Polícia Federal chamou de “o maior roubo a aposentados e pensionistas da história do Brasil”. O método era de uma simplicidade franciscana: descontar mensalidades de filiação diretamente dos benefícios de pessoas que jamais se filiaram a coisa alguma.
O aposentado de Alagoas acordava com R$ 1.200 no contracheque e dormia com R$ 1.170. A diferença — R$ 30 — ia para a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e da Aquicultura, entidade à qual ele nunca pertenceu, da qual nunca ouviu falar, e cujo presidente ele não reconheceria nem que aparecesse na sala de sua casa montado num atum.
A Confederação dos Pescadores, aliás, saltou de 3 filiados para 600 mil em dois anos. Um crescimento de 20 milhões por cento que não despertou curiosidade alguma nos órgãos de controle.
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O maestro da operação era um empresário de Brasília que a imprensa apelidou de “Calvinho do Seguro” — ou, nos autos da Polícia Federal, Antônio Carlos Camilo Antunes. Calvinho movimentou R$ 24,5 milhões em cinco meses. Tinha 22 empresas, uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas e uma coleção de automóveis que incluía:
- Uma Ferrari F8 avaliada em R$ 4 milhões
- Uma réplica da McLaren MP4/8, o carro com que Ayrton Senna correu em 1993
- Porsches, BMWs e Jaguars em quantidade suficiente para abrir uma concessionária
Quando a Polícia Federal bateu à sua porta, encontrou também o filho — que foi preso na fase seguinte, porque nesta família a sucessão patrimonial inclui o inquérito.
Na CPMI, Calvinho exerceu o direito de ficar em silêncio. Antes de calar, porém, fez uma breve declaração: disse que a prisão preventiva era “uma medida extremamente grave, baseada em premissa absolutamente equivocada”. Acrescentou que as denúncias contra ele foram motivadas por “mentira, inveja e calúnia”.
Inveja. De um homem que roubou aposentados para comprar uma réplica do carro de Senna. A capacidade humana de auto-justificação não conhece limites.
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Calvinho, porém, era apenas o operador. O advogado do esquema — ou pelo menos o advogado que movimentou R$ 4,3 bilhões em operações consideradas suspeitas pelo COAF — era uma figura ainda mais fascinante: Neném Ostentação, o primeiro advogado a estampar a capa da Forbes Brasil.
Neném — cujo nome civil os autos preservam com menos carinho — tinha 1,5 milhão de seguidores no Instagram, onde exibia viagens de luxo, palestras motivacionais e imagens geradas por inteligência artificial ilustrando suas frases de efeito. Publicou um livro chamado “Loucura, Não. Coragem!” e criou uma versão de si mesmo em desenho animado, o simpático “Dr. Nelsinho”, que aparecia nas redes distribuindo conselhos a jovens advogados.
Na casa de Neném, a Polícia Federal encontrou:
- Mais uma Ferrari F8
- Mais uma réplica da McLaren de Senna (dois advogados, duas McLarens — há um padrão aqui)
- Um Rolls-Royce
- Um Porsche
- Uma coleção de esculturas eróticas
- Armas
- E o terreno vizinho, comprado por R$ 22 milhões de um sócio, para servir de jardim
Quando convocado à CPMI, Neném chegou munido de habeas corpus do ministro Nunes Marques garantindo seu direito ao silêncio. Recusou-se a assinar o compromisso de dizer a verdade. Perguntado se sua fortuna era produto do roubo a aposentados, respondeu que “não possuía ligação com os fatos investigados”.
Disse também que abominava o que aconteceu no Instituto Nunca Sobra e classificou os crimes como “hediondos”.
Hediondos. Ditos por um homem com esculturas eróticas na sala e uma McLaren de Senna na garagem.
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Mas quem protegia o esquema?
A Polícia Federal encontrou, no celular de um funcionário de Calvinho, uma planilha em Excel intitulada “GRUPO SENADOR WEVERTINHO”. O senador em questão — vice-líder do governo no Senado, relator de pautas sensíveis ao Planalto — negou qualquer envolvimento. A PF, porém, documentou que ele:
- Compartilhou um jatinho com Calvinho do Seguro
- Indicou politicamente o secretário-executivo do Ministério da Previdência — que foi preso
- Tinha um assessor apelidado nos bastidores de “Gasparzinho”, que trabalhava como fantasma e apareceu no Ministério junto com Calvinho para uma reunião omitida da agenda oficial
A PF chamou o senador de “sustentáculo político” do esquema. Ele respondeu que foi “surpreendido” com a operação e se colocou “à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas”.
A surpresa de quem compartilha jatinho com o operador de uma fraude bilionária é sempre comovente.
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E o governo? Ora, houve dois.
O primeiro — de 2019 a 2022 — recebeu alertas formais em 2018 (na transição), em 2019 (via Procon de São Paulo, Ministério da Justiça e Ministério da Economia) e em 2024 (quando as reclamações no Instituto Nunca Sobra saltaram de 40 mil para 1,5 milhão). Nenhuma providência foi tomada. O ex-presidente, hoje inelegível e hóspede da Papudinha, alega que não sabia de nada.
O segundo governo — de 2023 em diante — descobriu a fraude, deflagrou a operação, devolveu R$ 2,4 bilhões a 3,5 milhões de aposentados e prendeu os principais operadores. Mas também nomeou para o Ministério da Previdência um secretário-executivo que era ex-chefe de gabinete do “sustentáculo político” do esquema. E afrouxou, em agosto de 2023, os controles que exigiam que os acordos com associações passassem pelo crivo do Instituto.
O resultado é uma fraude bipartidária: nasceu à direita, cresceu à esquerda, e as vítimas continuam sendo as mesmas — aposentados do interior que perdiam R$ 30 por mês para sindicatos de pescadores aos quais nunca se filiaram.
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O que sabemos:
- R$ 6,3 bilhões foram desviados
- 4,1 milhões de pessoas foram lesadas
- Associações usaram software para falsificar assinaturas e mandaram áudios como “prova” de adesão
- O Instituto respondia às reclamações com a frase “desconto previsto em lei”
- Os operadores compraram Ferraris, McLarens, Rolls-Royces, offshores, mansões e esculturas eróticas
- Um senador aparece em planilha com seu nome, compartilhou jatinho com o fraudador, indicou o nº 2 do Ministério, mas foi “surpreendido”
- Dois governos foram alertados; um ignorou, outro demorou
O que nunca saberemos:
- Quantas aposentadas deixaram de comprar remédio
- Quantos aposentados deixaram de pagar a conta de luz
- Quantas famílias passaram fome porque R$ 30 faziam diferença
- E por que, num país que prende usuário de maconha por tráfico, um homem com R$ 24 milhões em cinco meses, uma Ferrari e uma réplica da McLaren de Senna conseguiu habeas corpus para ficar em silêncio
A Farra do Instituto Nunca Sobra acabou.
Os R$ 30 que faltavam na aposentadoria de dona Maria, porém, não voltam no tempo.
Ela não vai recuperar o mês em que deixou de comprar o remédio da pressão.
Calvinho, Neném e Wevertinho, sim — eles vão contratar os melhores advogados.
Talvez até um com esculturas eróticas na sala.
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Nota do Colunista: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com lobistas calvos, advogados de capa de revista, McLarens de Senna, esculturas eróticas, planilhas com nomes de senadores e aposentados que perderam R$ 30 por mês é mera coincidência estatística.
Gael Libório é colunista de O Picadeiro. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor.
*criado com apoio de Claude Opus 4.5

