ou: Como a Pindolândia Descobriu que Também Sabe Fazer Golpe
por Gael Libório
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Nicolau Madeira, ex-motorista de ônibus, ex-chanceler, ex-vice e presidente quase-vitalício da Bolivariana, acordou na manhã de sábado com um problema logístico: havia sido sequestrado.
Não pelo povo bolivariano, que há anos tentava tirá-lo do Palácio pelo voto — e a quem Madeira respondia com apurações criativas, prisões seletivas e aquele sorriso de quem sabe que o árbitro é da casa. Tampouco por algum general descontente, já que os generais estavam ocupados demais administrando minas de ouro e rotas de pó branco para se preocupar com trivialidades como democracia.
Não. Nicolau Madeira foi sequestrado pela Pindolândia do Norte, que decidiu aplicar na Bolivariana o mesmo princípio que aplica em condomínios de luxo: se o inquilino não sai, a gente entra.
Donaldo Trompa, o magnata alaranjado que ocupa o trono pindolândico, anunciou a novidade com a sutileza diplomática que lhe é peculiar: a Pindolândia iria “governar a Bolivariana” até que uma “transição segura” ocorresse. Transição para quê, não ficou claro. Mas segura, com certeza — segura por porta-aviões, Marines e o tipo de democracia que chega de paraquedas.
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A história de Madeira é a história de um improvável. Herdeiro político de Hugo Boina, o comandante carismático que transformou petróleo em votos e votos em culto à personalidade, Nicolau nunca teve o carisma do mestre. Onde Boina era trovão, Madeira era eco. Onde Boina improvisava discursos de quatro horas, Madeira tropeçava nas próprias frases e inventava palavras que nem o dicionário reconhecia. Os bolivarianos chamavam seus tropeços de “madeiradas” — e riam, até perceberem que a piada tinha virado tragédia.
Porque Madeira, apesar de tudo, era astuto na única arte que importa aos autocratas: sobreviver. Distribuiu ministérios aos militares, minas aos generais, rotas aos traficantes. Criou uma teia de cumplicidades tão densa que tirá-lo significava derrubar metade do país junto. E quando o povo votou contra ele em 2024 — com registros mostrando vitória esmagadora da oposição —, Madeira fez o que qualquer democrata de verdade jamais faria: ignorou os números e tomou posse assim mesmo.
Corina Ignóbil, a líder oposicionista que o derrotou nas urnas e ganhou um Nobel da Paz como prêmio de consolação, permanece escondida em algum lugar da Bolivariana. Oitocentos e tantos presos políticos permanecem em celas. Quase oito milhões de bolivarianos permanecem no exílio. E Madeira permanecia no Palácio — até que a Pindolândia decidiu que permanência demais é desaforo.
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Há algo de profundamente irônico em ver Donaldo Trompa, o homem que tentou anular a própria eleição em 2021, posar de paladino da democracia alheia. A Pindolândia do Norte, que financiou mais golpes na América Latina do que a Bruzundanga tem buracos em estrada, agora quer nos convencer de que sequestrar presidentes é, na verdade, libertação. O país que inventou a Doutrina Monroe — “a América para os americanos”, desde que os americanos sejam eles — redescobriu seu passatempo favorito: ensinar democracia a tiros.
Mas há também algo de grotesco em ver setores da esquerda bruzundanguense, que passaram anos chamando Madeira de “resistência anti-imperialista”, agora descobrirem que imperialismo só existe quando vem do norte. A repressão aos estudantes, as torturas documentadas pela ONU, os milhões de refugiados — tudo isso era, aparentemente, fake news até que as bombas começaram a cair.
A verdade é que a Bolivariana foi sequestrada duas vezes. Primeiro por Madeira, que confundiu revolução com permanência e povo com propriedade. Depois pela Pindolândia, que confunde libertação com ocupação e democracia com conveniência.
Os bolivarianos, como sempre, assistem de longe — de Lima, de Bogotá, de São Paulo, de Miami —, torcendo para que desta vez sobre alguma coisa para eles. Provavelmente não vai sobrar. Em disputas entre autocratas e impérios, quem paga a conta é sempre o povo que não foi convidado para a mesa.
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Enquanto isso, na Bruzundanga, o Capitão Cloroquino comemorou o sequestro com fogos de artifício e postagens em caixa alta. Inácio Molusco, por sua vez, divulgou nota cautelosa pedindo “respeito à soberania dos povos” — a mesma soberania que ele esqueceu de mencionar quando Madeira prendia opositores.
Donaldo Trompa, em coletiva de imprensa, garantiu que a ocupação será breve. Assim como foram breves as ocupações do Iraque, do Afeganistão e de todos os outros lugares onde a Pindolândia prometeu democracia e entregou escombros.
Nicolau Madeira, algemado em Nova York, declarou-se inocente. É a primeira vez em anos que ele se declara alguma coisa que não “presidente legítimo”.
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Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência geopolítica.

