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O Herdeiro e a Carta de Natal
21/01/2026

O Herdeiro e a Carta de Natal

O Herdeiro e a Carta de Natal

Ou: Como ungir um candidato da cadeia usando apenas um ferro de solda e uma folha de papel

por Gael Liborio

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No dia 25 de dezembro de 2025, enquanto o Brasil comemorava o Natal com chester e panetone, o Capitão Cloroquino redigia, de próprio punho, uma carta que entraria para a história da criatividade jurídico-eleitoral brasileira.

Preso numa sala de 12 metros quadrados na Superintendência da Polícia Federal — com frigobar, televisão e a companhia de suas próprias escolhas —, o ex-presidente escreveu o que só pode ser descrito como um testamento político com pretensões dinásticas. O destinatário era o povo brasileiro. O beneficiário era o filho mais velho.

“Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho para a missão de resgatar o nosso Brasil.”

A carta foi publicada três semanas depois pelo segundo filho, Carluxo Zero-Dois, nas redes sociais. Sem comentários adicionais. Porque quando se está ungindo um herdeiro da cadeia, a solenidade dispensa legendas.

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Flavinho Zero-Um — assim chamado por ser o primogênito do clã — acordou no dia 5 de dezembro como senador pelo Rio de Janeiro e dormiu como pré-candidato à Presidência da República. A transição foi rápida, como convém às monarquias.

“Essa candidatura é irreversível”, declarou ele ao deixar a Superintendência da PF após visitar o pai. “Palavras dele. Não vamos voltar atrás.”

Palavras dele. Do homem que, um mês antes, havia sido preso por tentar violar a própria tornozeleira eletrônica com um ferro de solda.

Na audiência de custódia, o Capitão Cloroquino explicou que agiu por “curiosidade”. Depois, mudou a versão: disse que teve um “surto” causado por medicamentos. A Polícia Federal, menos criativa, apontou que ele tentava fugir às vésperas do início do cumprimento de sua pena de 27 anos.

É desse homem que vem a ordem. É dessa cadeia que parte a unção. É com esse currículo que o Partido da Libertinagem pretende reconquistar o Brasil.

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Flavinho, porém, tem um problema que nenhuma carta de Natal resolve: ele não é o pai.

Os analistas são unânimes: falta-lhe o carisma do Capitão e a contundência do irmão Eduardo. Nas pesquisas, lidera entre os nomes da direita com 20,6% das intenções de voto — mas 27,3% dos eleitores conservadores declaram que não votariam em nenhum dos candidatos apresentados. Ou seja: a rejeição ao campo supera a adesão ao herdeiro.

O mercado financeiro desconfia. O Centrão hesita. Dirigentes do PP e do União Brasil comparecem às reuniões, acenam com a cabeça e saem pela porta dos fundos murmurando que “a candidatura não tem força”.

Michequinha — a ex-primeira-dama que recebeu 27 cheques de Fabricinho Rachinha sem jamais explicar o motivo — é considerada por muitos mais carismática e mais conectada ao eleitorado evangélico. Mas Michequinha ficará com o Senado. O Planalto é para o sangue.

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Ah, Fabricinho Rachinha. O fantasma que assombra qualquer conversa sobre Flavinho Zero-Um.

Em 2018, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras detectou R$ 1,2 milhão em movimentações atípicas na conta do então assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. As investigações revelaram um esquema clássico de “rachadinha”: funcionários nomeados que devolviam parte do salário ao chefe. Alguns nem apareciam para trabalhar — eram os célebres “funcionários fantasmas”, categoria profissional em que a Bruzundanga é pioneira mundial.

O dinheiro era lavado, segundo o Ministério Público, através de uma loja de chocolates da qual Flavinho era sócio. Houve 1.512 repasses de Fabricinho Rachinha para o estabelecimento. Porque nada diz “lavagem de dinheiro” como trufas artesanais.

O MP denunciou Flavinho por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Mas o Superior Tribunal de Justiça anulou as provas — porque o caso havia começado na primeira instância, e o senador tinha direito a foro privilegiado. As provas eram robustas; o procedimento, tecnicamente incorreto. A Justiça brasileira, fiel a si mesma, escolheu a forma sobre o conteúdo.

Fabricinho Rachinha, que admitiu o esquema por escrito, cumpriu prisão domiciliar e hoje é subsecretário de Segurança Pública de Saquarema, no Rio de Janeiro. Porque na Bruzundanga, quem opera rachadinha com senador acaba cuidando da segurança de cidade litorânea.

E os R$ 89 mil em cheques depositados na conta de Michequinha? Até hoje, nenhuma explicação. Eram 27 cheques, valores redondos, múltiplos de mil. Perguntado sobre o assunto à época, o Capitão Cloroquino respondeu a um repórter: “Vontade de encher sua boca de porrada.”

Esclarecedor.

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O que sabemos sobre Flavinho Zero-Um:

Que ele foi ungido candidato por um homem condenado a 27 anos de prisão.

Que a unção veio numa carta de Natal escrita da cadeia.

Que o pai que o ungiu tentou violar a tornozeleira com ferro de solda e alegou “curiosidade”.

Que o caso da rachadinha foi arquivado por vício processual, não por inocência.

Que seu ex-assessor admitiu o esquema e hoje cuida da segurança de uma cidade no Rio.

Que R$ 6 milhões teriam sido desviados de funcionários fantasmas para chocolates artesanais.

Que R$ 89 mil foram parar na conta da madrasta sem explicação.

Que ele se apresenta como uma “versão moderada” do pai — o que, dado o histórico do pai, ainda deixa bastante margem.

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O que nunca saberemos:

Se a carta de Natal foi escrita antes ou depois do ferro de solda.

Por que o mercado financeiro comparece às reuniões mas não assina os cheques.

O que exatamente Fabricinho Rachinha fazia para merecer R$ 1,2 milhão em movimentações atípicas.

Para que serviam os chocolates.

E se, em algum momento, alguém da família vai explicar os 27 cheques de Michequinha.

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Flavinho Zero-Um diz que sua candidatura é “irreversível”.

O Capitão Cloroquino, da cadeia, concorda.

O eleitor brasileiro, mais uma vez, terá que escolher.

Entre o pai que tentou dar um golpe e o filho que herdou o chocolate.

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Gael Libório é colunista de O Picadeiro. As opiniões expressas são de responsabilidade do personagem.

Nota do Colunista: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com ex-presidentes presos, herdeiros ungidos, ferros de solda, lojas de chocolate, funcionários fantasmas e cheques inexplicados é mera coincidência familiar.

*criado com apoio de Claude Opus 4.5

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