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O Picadeiro – Diário do Grande Circo
09/01/2026

O Picadeiro – Diário do Grande Circo

O Picadeiro
O Picadeiro não é uma coluna de esquerda. Não é uma coluna de direita. É uma coluna de baixo — do ponto de vista de quem paga a conta, assiste ao espetáculo e nunca é convidado a subir no palco.

O Picadeiro: A Que Viemos

Ou: Por que mais uma coluna de política num país que já tem política demais

por Gael Libório

O Brasil é um circo. Isso não é metáfora — é constatação geográfica.

Num território de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, 215 milhões de pessoas acordam todo dia para assistir a um espetáculo que ninguém comprou ingresso: deputados guardam dinheiro em cuecas, senadores guardam em latas de lixo, ministros ligam para presidentes de bancos sobre contratos de suas esposas, ex-presidentes tentam adulterar tornozeleiras eletrônicas, e lobistas compram réplicas da McLaren de Ayrton Senna com dinheiro desviado de aposentados.

O leitor médio, diante de tanta notícia, desenvolve uma de duas reações: a indignação seletiva ou a apatia terminal. Na primeira, ele se revolta apenas com os crimes do partido adversário. Na segunda, ele desliga o noticiário e vai viver sua vida, porque a alma não aguenta.

Esta coluna propõe uma terceira via: o espanto metódico.

O Picadeiro

O Picadeiro não é uma coluna de esquerda. Não é uma coluna de direita. É uma coluna de baixo — do ponto de vista de quem paga a conta, assiste ao espetáculo e nunca é convidado a subir no palco.

Aqui não há mocinhos. Não há bandidos redimidos pelo voto popular. Não há “nós” contra “eles” — porque, no picadeiro, todos os palhaços usam a mesma maquiagem por baixo da fantasia partidária.

Quando um ministro do Supremo telefona quatro vezes para o presidente do Banco Central sobre um banco que paga R$ 129 milhões ao escritório de sua esposa, o problema não é de esquerda nem de direita. É de cima — de muito, muito acima.

Quando um governo ignora alertas de fraude bilionária contra aposentados, e o governo seguinte nomeia para o Ministério da Previdência o ex-chefe de gabinete do “sustentáculo político” do esquema, a questão não é ideológica. É sistêmica.

Quando um deputado é flagrado com R$ 469 mil em sacos de lixo e diz que o dinheiro era para “comprar uma casa” — em espécie, em notas de cem, num saco de lixo — o absurdo transcende o espectro político. Ele habita uma dimensão própria, onde a vergonha não existe e a criatividade narrativa não conhece limites.

A tradição satírica

A tradição satírica brasileira é antiga e ilustre. Lima Barreto inventou a República dos Bruzundangas para não precisar chamar o Brasil pelo nome. Machado de Assis fez o defunto Brás Cubas narrar suas memórias para poder dizer o que nenhum vivo ousaria. Luís Fernando Veríssimo transformou a crônica em bisturi. Millôr Fernandes provou que o humor é a politização da inteligência.

Esta coluna não pretende sucedê-los — seria soberba imperdoável. Pretende apenas continuar a caminhada, com a humildade de quem sabe que, no Brasil, a realidade sempre supera a sátira. Nosso trabalho é correr atrás.

O que esperar

O que o leitor pode esperar:

Crônicas semanais sobre o circo político brasileiro e mundial. Nomes serão trocados — não por covardia jurídica, mas por tradição literária. O ex-presidente será “Capitão Cloroquino”. O bilionário que compra governos será “Elão Foguetinho”. O ditador venezuelano será “Nicolau Madeira”. O ministro que telefona demais será “Xandinho das Galáxias”.

Os codinomes não protegem ninguém. Eles apenas sublinham o óbvio: que os personagens do picadeiro brasileiro são tão reconhecíveis que dispensam apresentação. O leitor saberá de quem falamos. E se não souber, bastará ler o jornal do dia.

O que o leitor não deve esperar:

Equilíbrio artificial. Se um lado cometer mais absurdos numa semana, esse lado receberá mais atenção. Não distribuímos indignação em porções iguais para parecer imparciais. A imparcialidade do Picadeiro é outra: tratamos todos os poderosos com a mesma desconfiança, todos os vulneráveis com o mesmo respeito.

Não defenderemos políticos. Defenderemos, quando necessário, políticas — mas apenas aquelas que protegem quem não tem Ferrari, offshore ou habeas corpus preventivo.

Por que “Picadeiro”?

Porque é onde os números acontecem. O picadeiro é o centro do circo — o espaço circular, coberto de serragem, onde malabaristas equilibram bolas, domadores fingem controlar feras e palhaços simulam tropeços ensaiados.

A política brasileira é exatamente isso: um espetáculo de equilíbrio precário, feras mal domesticadas e tropeços que parecem acidentais mas seguem roteiro. A diferença é que, no circo de verdade, ninguém sai machucado. No nosso, saem milhões.

Uma última nota:

Esta coluna será escrita por Gael Libório, cronista fictício que existe apenas nestas páginas. Gael não tem CPF, não vota, não torce para time de futebol e não tem opinião sobre churrasco. Sua única função é observar o picadeiro e relatar o que vê — com a vantagem de quem não precisa agradar anunciante, cultivar fonte ou preservar amizade.

Gael é livre. E a liberdade, no jornalismo brasileiro de 2026, é um artigo de luxo.

Bem-vindos ao Picadeiro.

O espetáculo já começou. Aliás, nunca parou.

Gael Libório é colunista de O Picadeiro. As opiniões expressas são de responsabilidade do personagem — e, por extensão, de quem o criou.

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