Por Gael Libório Austral
Há um tipo de coincidência que só acontece entre pessoas muito, muito íntimas — ou muito, muito espertas.
Em algum momento de 2024, o Banco Maestro, instituição financeira de médio porte comandada pelo empresário Danilo Vocário, decidiu que precisava de serviços advocatícios. Não de qualquer advocacia: precisava de uma banca capaz de representá-lo perante o Banco Central, a Receita Federal, o Cade e o Congresso Nacional. Um trabalho complexo, delicado, que exigiria relacionamento, trânsito, conhecimento das engrenagens do poder.
A escolha recaiu sobre o escritório Barquinho & Associados, comandado por Vivinha Barquinho — que, por uma daquelas coincidências da vida, é casada com Xandinho das Galáxias, ministro do Supremo Tribunal de Fantasia e, possivelmente, o homem mais temido da Bruzundanga.
O contrato previa honorários de R$ 3,6 milhões por mês. Por trinta e seis meses. Total: R$ 129 milhões.
Para um escritório de advocacia, é um contrato generoso. Para qualquer escritório de advocacia. Mas especialmente generoso quando o marido da titular ocupa a mais alta corte do país e, não por acaso, costuma decidir sobre a vida e a morte jurídica de empresários, políticos e instituições.
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O curioso caso do telefone que tocou
Em agosto, o Banco Central começou a apertar o cerco sobre o Maestro. Os técnicos haviam identificado irregularidades graves — suspeitas de fraudes da ordem de R$ 12 bilhões — que inviabilizariam a venda do banco para o Banco de Quadrângula (o BQ, estatal controlado pelo governo do Distrito Federal).
Foi então que, segundo seis fontes ouvidas pela colunista Maluca Gaspar, do jornal A Esfera, Xandinho das Galáxias decidiu ligar para o presidente do Banco Central, Gabrielzinho Gazpacho.
Ligou uma vez. Ligou duas. Ligou três. Na quarta, apareceu pessoalmente.
O assunto oficial, segundo o ministro, era a Lei Malapata — a sanção americana que havia congelado suas contas e cartões de crédito. Nada a ver com o Maestro. Coincidência pura de que os telefonemas ocorriam justamente nos dias em que o BC avaliava a situação do banco.
Gazpacho, por sua vez, teria respondido a quem perguntou se houve pressão: “Leviandade”.
É uma palavra bonita, “leviandade”. Significa algo entre frivolidade e imprudência. Significa, também, que ninguém vai provar nada.
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O contrato fantasma
Há um detalhe delicioso no contrato de R$ 129 milhões: ele estabelecia que o escritório Barquinho representaria os interesses do Banco Maestro junto ao Banco Central, à Receita, ao Cade e ao Congresso.
Pois bem. Jornalistas usaram a Lei de Acesso à Informação para verificar se o escritório havia, de fato, peticionado, agendado reuniões ou protocolado documentos em alguma dessas instituições.
A resposta: nenhum registro encontrado.
Nenhum. Zero. Nada.
R$ 3,6 milhões por mês para representar interesses em órgãos nos quais ninguém apareceu para representar coisa alguma.
Talvez seja um novo modelo de advocacia preventiva. Tão preventiva que previne até a própria atuação.
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O jato da Libertadores
Enquanto isso, no Supremo Tribunal de Fantasia, o ministro Todinho de Sousa decidiu que o caso do Banco Maestro merecia sigilo absoluto. Total. Ninguém poderia saber nada.
O argumento: havia um deputado mencionado em um contrato apreendido pela Polícia Federal, o que daria foro privilegiado ao Supremo. Qual deputado? Sigilo. Qual contrato? Sigilo. Qual o teor? Sigilo.
Dias depois, Todinho foi flagrado viajando para a final da Libertadores no mesmo jato particular que o advogado de um dos investigados no caso.
Coincidência, naturalmente. Em Bruzundanga, coincidências viajam de jatinho.
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A PGR arquiva, a oposição grita
O Procurador-Geral da República, Paulo Corneteiro, analisou o caso e decidiu: não há ilícito. Não há prova. Não há nada.
O contrato? “Não se vislumbra, a priori, qualquer ilicitude.”
Os telefonemas? Ambas as partes negam. Negativa convergente.
Arquivo.
A oposição, naturalmente, não se conformou. Senadores pedem CPI. Deputados pedem impeachment. O líder da oposição declarou: “O Brasil não pode conviver com sombras de dúvidas sobre aqueles que deveriam ser os guardiões da Justiça.”
É uma frase bonita. Pena que vem dos mesmos que, há não muito tempo, atacavam o Supremo por outras razões — e que, portanto, têm interesse em atacá-lo agora por qualquer razão.
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A moral da história (se é que existe)
Eis o que sabemos com certeza:
- Um banco investigado por fraudes bilionárias contratou a esposa de um ministro do Supremo por R$ 129 milhões.
- O ministro telefonou para o presidente do Banco Central nos dias críticos da avaliação desse banco.
- O escritório contratado não registrou nenhuma atuação nos órgãos que deveria representar.
- A PGR arquivou o caso por falta de provas.
- Outro ministro decretou sigilo total e viajou de jatinho com advogado de investigado.
E eis o que jamais saberemos:
- O que exatamente foi dito nos telefonemas.
- Por que o contrato foi firmado.
- O que o escritório fez para merecer R$ 3,6 milhões mensais.
- Por que tudo isso é sigilo.
Em Bruzundanga, a Justiça é cega. Mas às vezes parece que ela também é surda, muda e muito bem remunerada.
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Nota do colunista: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com ministros, banqueiros, contratos milionários e coincidências estatisticamente improváveis é mera coincidência temática.
*criado com apoio de IA (Claude Opus 4.5)

