Por muitos anos resisti à leitura de O Velho e o Mar, por muitos considerada a obra prima de Ernest Hemingway. Tinha lido e relido várias vezes seu livro póstumo Paris é uma festa, onde narra sua juventude na cidade luz. E também assisti vários documentários sobre este autor americano que fazia parte da geração perdida, como chamou Gertrude Stein, sua grande amiga. Resolvi enfrentar o desafio interno de e fui lê-lo agora por obrigação afetiva: um clube do livro, cujo tema transita por jornadas no envelhecimento. Pareceu inevitável.
Li. Continuou me incomodando.
Não a linguagem. O estilo de Hemingway é certeiro, econômico, sem ornamento. Gosto disso. Não enrola nem faz enfeite desnecessário. Essa parte eu respeito. Me incomoda outra coisa. A lógica inteira da jornada. Para que provar algo? Para quem? Um homem sozinho, no mar, três dias, matando um peixe enorme que os tubarões devoram no caminho de volta. Ele acaba chegando com o esqueleto, com as mãos cortadas, com a glória da derrota digna, mas com a gratificação da jornada cumprida. O desafio como meta.
Continuo olhando para aquilo e pensando: Para que? Santiago tinha sabedoria. Tinha o jovem aprendiz, Manolin . Tinha o que passar adiante. Por que foi sozinho?
Me incomoda a jornada do heroi. O mito masculino de ter que vencer batalhas, mesmo que sejam internas. Aí lembrei da leitura de um livro dos anos 80, chamado HE, a chave do entendimento da psicologia masculina, de Robert A. Johnson. Eram épocas de inquietude com papéis de gênero onde li muito sobre tudo. Ele faz uma análise pelo lado junguiana sobre o Mito de Parsifal e a Busca do Santo Graal. Não domino o tema, mas me chamou a atenção a menção sobre o mito do Rei Pescador. A ferida na virilha, a terra estéril, o Graal que ninguém sabe a quem serve. Uma curiosidade que me veio à mente de como Santiago poderia ser como o rei ferido que guarda um código de honra e vai buscar o que talvez seja a única prova de que ainda existe. O marlim como aparição, não como peixe. A luta como peregrinação. A pergunta que ninguém faz.
Me fez sentido. Tem uma lógica que reconheço a estrutura. Mas mesmo assim a resistência não passa. Será realmente uma explicação plausível?
Lembro de quando estudava arquitetura. Muitas vezes os professores olhavam para o projeto e enumeravam intenções que eu nunca havia tido. A planta respirava uma tensão entre cheio e vazio que eu não havia planejado. O corredor conduzia a luz de um modo que eu não havia calculado. Eles enxergavam. Mas era a intenção dele, não a minha. Pelo menos, não intenção na superfície. Talvez quem sabe, nas profundezas?…Mas não posso deixar de pensar: E se Hemingway talvez apenas relatasse a pesca. A interpretação pode ser minha, pode ser sua, pode ser dos leitores, não do autor.
O que me inquieta é também isso: a explicação junguiana é bela e pode estar certa. E mesmo sendo certa, o que ela explica é uma ferida masculina específica. A necessidade de provar. A solidão como condição da grandeza. A derrota honrada como forma de vitória. É uma estrutura que reconheço porque cresci dentro dela, na vida, na arquitetura, na literatura, nas histórias de fundadores e heróis. Mas nunca foi a minha estrutura.
Na minha visão, Santiago não precisava provar nada. Tinha oitenta e quatro dias de esterilidade e um menino que o respeitava pelo que era e continuava sendo. Uma definição bem justa para o amor. Poderia ter feito uma teia. Poderia ter ensinado. Ou pedido ajuda sem humilhação. Plantado ao invés de pescar, como pensei quando fechei o livro.
A diferença não é apenas de gênero. É de cosmologia. O herói solitário que vai longe demais e volta com o esqueleto do que buscava é uma narrativa de sentido por subtração. Perde-se para provar que se é. A teia, ao contrário, é uma narrativa de sentido por acumulação. Constrói-se junto. O que sobra não é o esqueleto, é a memória viva no outro.
Talvez as duas narrativas sejam igualmente trágicas. Talvez eu esteja colocando no velho pescador cubano a minha impaciência com séculos de uma só história sendo contada como se fosse a única possível.
O livro continua me incomodando. A análise junguiana me deu vocabulário para o incômodo, não alívio dele.
E o peixe. O peixe não precisava morrer.
Talvez eu pense demais.
Mas continuo andando e pensando em mundos onde os peixes possam coexistir sem precisar ser sacrifício no altar de egos alheios

