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Ela Pássaro

Ela Pássaro

Ela pássaro

Um tempo em que a palavra gemia

Um tempo onde cuidar era também espremer

seiva

e jorrar fel apesar do mel

Um tempo em que janela era apelo de vida

quase desespero

Os tempos se sucedem

Outros tempos

Outras necessidades

Recortar momentos passados é também consolidar mudanças

O tempo voa

Como os pássaros

Sonhou que era um pássaro.
Naquele dia tudo foi da maneira que sempre foi.
Só que não.
Acordou sem pressa.
Bocejou profundamente e se espreguiçou feito gata manhosa.
Fez o café cheiroso.
Até a pitada de canela colocou no pó para dar aquele sabor especial de coisa amada.
O jornal deixou de lado porque já sabia as notícias que traria.
E não eram as que esperava ler.
Não mais.
https://www.pexels.com/photo/art-clouds-daylight-jump-191756/
Não mais a tranquilidade.
Não mais o tempo correndo suave feito chuva no milharal.
Agora tudo era corrido.
Agora tudo era dolorido.
Os ponteiros pareciam correr, doidos.
Giravam para trás numa velocidade estonteante.
Décadas se passaram com sofreguidão.
O tempo voltou.
Ela sonhando que era pássaro.
Desses que podiam voar.
Voo de sonho doido.
Voo de volúpia de vida.
E o tempo voltando.
E ela sonhando.
Dentro dela, milhares de synapses se esfacelando.
As asas soltando uma a uma as penas dolorosamente esculpidas.
Era Ícaro.
Chegou muito perto do sol.
Foi derretendo devagar.
Sonhando que era pássaro.
A janela acenando com uma saída.
O tempo girando ao contrário.
As respostas findando sem perguntas.
Ela deixando de sonhar.
As asas derretidas.
A janela aberta.
Ela pássaro.
O tempo parando.
Foto e poema meus, feitos em tempos distintos. A foto em 2026, a poesia em 2018, de alguma maneira os tempos se tocando e pedaços de uma eu se mesclando com outra eu de agora.
Ambas buscantes
Ambas seguintes
Amabas pensantes
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