Um tempo em que a palavra gemia
Um tempo onde cuidar era também espremer
seiva
e jorrar fel apesar do mel
Um tempo em que janela era apelo de vida
quase desespero
Os tempos se sucedem
Outros tempos
Outras necessidades
Recortar momentos passados é também consolidar mudanças
O tempo voa
Como os pássaros
Sonhou que era um pássaro.
Naquele dia tudo foi da maneira que sempre foi.
Só que não.
Acordou sem pressa.
Bocejou profundamente e se espreguiçou feito gata manhosa.
Fez o café cheiroso.
Até a pitada de canela colocou no pó para dar aquele sabor especial de coisa amada.
O jornal deixou de lado porque já sabia as notícias que traria.
E não eram as que esperava ler.
Não mais.
Não mais a tranquilidade.Não mais o tempo correndo suave feito chuva no milharal.Agora tudo era corrido.Agora tudo era dolorido.
Os ponteiros pareciam correr, doidos.
Giravam para trás numa velocidade estonteante.
Décadas se passaram com sofreguidão.
O tempo voltou.
Ela sonhando que era pássaro.
Desses que podiam voar.
Voo de sonho doido.
Voo de volúpia de vida.
E o tempo voltando.
E ela sonhando.
Dentro dela, milhares de synapses se esfacelando.As asas soltando uma a uma as penas dolorosamente esculpidas.Era Ícaro.Chegou muito perto do sol.
Foi derretendo devagar.
Sonhando que era pássaro.
A janela acenando com uma saída.
O tempo girando ao contrário.
As respostas findando sem perguntas.
Ela deixando de sonhar.
As asas derretidas.
A janela aberta.
Ela pássaro.
O tempo parando.
Foto e poema meus, feitos em tempos distintos. A foto em 2026, a poesia em 2018, de alguma maneira os tempos se tocando e pedaços de uma eu se mesclando com outra eu de agora.
Ambas buscantes
Ambas seguintes
Amabas pensantes
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