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O sapato, o Oscar e o que escolhemos ignorar

O sapato, o Oscar e o que escolhemos ignorar

Foto Elenara Stein Leitão

Das pequenas poesias do cotidiano

A cidade se nos revela em todos os momentos. Barulhenta, muitas vezes. Apressada quase sempre. Sutil naqueles momentos em que o olhar percebe.

Um trabalhador que joga um sapato num canto enquanto limpa o que nunca vai poder ter. Uma porta que se abre, não necessariamente de abrigo nem acolhimento.

Um momento do cotidiano.

Um homem que cuida no seu trabalho diário. Agradece a força de ter onde buscar o que comer. Sobrevivência.

Um sapato descansando

Um sapato para lutar como diz o diretor espanhol, que citava o cinema, mas tropeçou sem querer em uma metáfora poderosa. Ao dizer que, se o Brasil inscrevesse um sapato no Oscar, todos votariam nele, Óliver Laxe ironizou o que chamou de ultranacionalismo dos brasileiros da Academia. A frase, atravessada pela disputa entre Sirât e O Agente Secreto, virou ofensa, meme, bandeira. O país reagiu como costuma reagir quando um símbolo é tocado.

Que país contraditório. Se une para defender o sapato em redes sociais. E deixa sapatos jogados na vida real.

Há algo de profundamente revelador nesse movimento. A recente pesquisa do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), realizada pelo Instituto Ágora, escancara essa incoerência com números frios, quase constrangedores. Uma parcela significativa do país se indigna mais com dogmas, frases e símbolos do que com a morte sistemática de pessoas reais. Corrupção política gera mais revolta do que o fato de sermos o país que mais mata a população LGBTQIA+. Uma provocação religiosa pesa mais do que um corpo eliminado.

Os dados revelam ainda outro paradoxo. Aqueles que mais defendem valores religiosos são os que mais aceitam punições extremas, mesmo sabendo que um inocente pode morrer junto. Já os que não se apoiam em crenças dogmáticas demonstram maior recusa à injustiça irreversível.

Será que fomos treinados para reagir ao que fere abstrações e silenciar diante do que destrói vidas? O moralismo funciona como cortina. Protege privilégios, despolitiza a violência e desloca a empatia para onde ela não exige ação concreta.

Enquanto isso, o sapato real segue no chão. Gasto. Sujo. Sem glamour.

A cidade registra tudo. Ela guarda os sapatos largados, os corpos cansados, as portas que não acolhem. Registra também nossas escolhas simbólicas.

O que defendemos com fúria. O que ignoramos com naturalidade.

Talvez o problema não seja o sapato citado pelo diretor espanhol. Talvez seja nossa dificuldade crônica de enxergar os sapatos jogados na vida real. Aqueles que não concorrem a prêmios, não viralizam, não mobilizam torcida.

A coerência, essa sim, anda em falta pelas calçadas.

E não há Oscar que a substitua.

 

Sigo andando. Pensando. Às vezes fotografando.

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