Entre Mortes Horrendas e Benevolências Seletivas
Entre acordos e prejuízos corremos da vida.
Abalados por mortes horrendas.
Pessoas e animais.
No país polarizado onde vivemos, as mortes horrendas de animais chocam até mais que as humanas, por mais horrendas que sejam.
Talvez porque quase todos nos enternecemos pelos bichos que confiam e não podem se defender. Que sociedade é esta onde é diversão machucar? Onde é permissível torturar desde que o endereço seja bem posto na vida. Tal que permita ter bons advogados e viagens de recreio. Aí vira travessura. Coisa de menino desmiolado.
Fosse menino de comunidade, desses que nascem sem eira nem beira, esses já tinham sido eliminados, no afã de justiça que permeia um país onde ainda impera o olho por olho, dente por dente.
Para alguns. Para outros, as benesses. O olhar benevolente.
Em um primeiro momento os dedos acusam. Mas querem apostar quanto, em segundo momentos, o coração se abranda. Tão parecido com os nossos. Não tem cara de bandido. É tudo gente de bem em um país que confunde conta bancária com meritocracia.
E seguimos matando os guaipecas da vida.
Os vira latas.
Os que ousam divergir.
As mulheres.
Sigo andando. Pensando.


É inquietante pensar que o país chora os vira-latas, mas despreza os humanos que também foram jogados à rua da indiferença. Talvez porque seja mais fácil amar aquilo que não exige confronto — o bicho dócil, o inocente. Já o humano marginalizado nos lembra que a maldade não está só nos “monstros”, mas na serenidade com que os assistimos cair, todos os dias, sem que nada nos doa a ponto de mudar.
Nos faz pensar em nossa indignação seletiva e em como nos mobilizamos como nação para resolver os problemas que urgem.