Algumas reflexões de uma manhã perdida em uma cidade que leva o nome de alegre, e talvez muitos de seus habitantes o sejam.
Outros tanto não porque a vida é feita de diversidades. De desigualdades que o mérito pessoal, por mais ganas e talento, nem sempre é suficiente para atravessar os fossos.
Pois nesta cidade e, em muitas outras deste grande país, ceifado por debates acirrados sobre certezas e fatos (nem sempre reais) um acontecimento parava uma parcela significativa da população. Não era uma guerra que poderia ter proporções gigantes. Muito menos o debate sobre as resoluções de problemas de saúde e educação. Era o debate sobre um reality, um desses programas que arrecadam bilhões para a empresa que o promove.
E nem vou entrar aqui no mérito se é bom ou ruim, certo ou errado. Não faz parte do meu show este tipo de questionamento estéril. Cada um vê o que quer e o que gosta. O que me bate é porque alguns curtem imensamente e outros não? E isso não é apenas sobre este programa em particular. É sobre essa espetacularização da vida, da intimidade alheia. É só olhar a vida dos influencers e a exposição que as gerações mais jovens estão cada dia mais expostas. Nós, os mais velhos também. E das minhas elocubrações e cogitações, nasce esta pequena parábola.
Uma pequena parábola sobre
Sobre o que? Sobre questionamentos. Então vamos lá!
Em uma cidade de arquitetura normal e luz entre esplendorosa e sombria, os habitantes dividiam-se em dois bairros, separados apenas por riacho pomposamente chamado de Arroio da Arca.
No primeiro bairro, a direita das águas, chamado de o Palácio dos Reflexos, o ar era doce e o som ambiente era um murmúrio constante de aplausos e cores vibrantes. Ali, o tempo não existia para ser usado, mas para ser preenchido. Se um habitante sentia o peso de uma dúvida ou a sombra de uma tristeza, bastava vestir uma máscara de cores neon e entrar em uma das inúmeras salas de jogos. Nelas, adultos competiam para ver quem empilhava mais blocos de fumaça. Era o reino do Escapismo.
Ali, o alívio era imediato. Ninguém precisava encarar as rachaduras nas paredes ou o fato de que a cidade estava construída sobre solo instável, sujeita a alagamentos. “Por que olhar para o chão quando podemos olhar para os fogos de artifício?”, diziam. O escapismo era uma anestesia coletiva: eficaz contra a dor, mas letal para a consciência. Eles não viviam a vida; eles a assistiam através de filtros que tornavam o ordinário suportável, transformando o vazio em um espetáculo de luzes.
Já do outro lado, o esquerdo do arroio ficava o bairro que tinha sido barizado de Ateliê dos Alicerces. Ali, o silêncio era interrompido pelo som de ferramentas e pelo virar de páginas de pergaminhos antigos. Os habitantes não usavam máscaras. Eles passavam as horas estudando a resistência das pedras e a inclinação do sol. Era o reino do Significado.
Quando uma rachadura aparecia em uma parede, eles não a cobriam com um cartaz colorido. Eles cavavam até encontrar a raiz do problema, por mais cansativo ou pouco atraente que fosse o processo. Para eles, a beleza não estava no brilho, mas na integridade da estrutura. Frequentemente, sentiam o peso da realidade, uma carga que os vizinhos do Palácio ignoravam, mas o que construíam não se desfazia com o vento. Eles compreendiam que a vida não é um evento para ser assistido, mas uma matéria-prima para ser trabalhada com rigor e verdade.
O Encontro das Águas
A parábola da nossa sociedade atual reside no equilíbrio precário entre esses dois bairros onde, na verdade, todos vivemos:
O Escapismo é a nossa “sala de espelhos” digital. É o labirinto de algoritmos e competições vazias que nos oferece um refúgio contra o tédio e a angústia da finitude. Ele nos seduz porque o significado dá trabalho, e o cérebro humano, por economia, muitas vezes prefere o brilho fácil à luz do sol.
O Significado é o alicerce. É a busca pela fonte confiável, pelo dado técnico, pela compreensão profunda do que é ser humano e de como envelhecemos e habitamos os espaços com propósito.
Na nossa sociedade contemporânea, o perigo não é o escapismo em si. Afinal todos nós precisamos de momentos sob as luzes neon para descansar das agruras do mundo. O desastre de verdade ocorre quando o estar no bairro do Palácio dos Reflexos se torna tão grande que as pessoas esquecem como voltar para o bairro do Ateliê.
A verdadeira sabedoria, talvez, seja a de quem usa o escapismo apenas como um breve descanso no banco da praça, mas guarda no bolso as ferramentas para continuar a construção, sabendo que a única arquitetura que resiste ao tempo é aquela feita com a verdade das pedras, e não com a ilusão dos reflexos.
Moral da História
A vida é feita de harmonias. Nem séria demais, nem brincante demais. Entenda-se o brincante pela fuga da realidade. Todos temos as nossas. Eu adoro filminho bobo de Natal. E para descansar a cabeça assisto filmes de suspense policial. E também não estou absolutamente julgando quem adora Big Brother, se bem que ainda prefira o livro.
Escolha o seu equilíbrio entre escapismo e significado que faça sentido para você. Mas jamais abdique do pensar críticamente sobre tudo. Com leveza.
Sigo pensando e cogitando.

