Jáboacara é uma cidade pacata do meio do imenso país chamado Orabutã. É composta de muitos personagens muito ingênuos e outros nem tanto. Orabutã é um país imenso, diverso e peculiar. Outrora um país mais jovem, hoje 15% de seus habitantes têm mais de 60 anos e esta população mais longeva vem crescendo, fruto das vacinas tomadas na infância e também da diminuição do número de nascimentos. Em breve os orabutanenses mais velhos serão a maioria. E o país não está se preparando para esta breve realidade.
Jáboacara é uma cidade média. Nem muito grande que seja uma metrópole, nem muito pequena que seja uma aldeia. Pois foi nesse cenário que começou a circular uma doença invisível com uma estranha característica. Ao contrário de outras enfermidades, esta não afeta o corpo, mas a capacidade das pessoas de distinguir fatos de boatos. As pessoas a apelidaram de Febre dos Boatos.
Seu Antônio, da padaria, deixou de falar com o vizinho após acreditar numa mensagem recebida pelo celular. Dona Lurdes retirou suas economias do banco depois de um áudio alarmista. Casos assim começaram a se multiplicar sem que se pudesse fazer algo a respeito. Logo famílias deixaram de se falar e outros queriam se mudar de cidade e mesmo de país, alegando cenários apocalípticos que tinham recebido em aplicativos de mensagens. Uns até tomaram detergentes porque acreditavam que normas de saúde tinham um objetivo escuso.
No começo, muitos acreditaram que bastava ter leis mais duras e prender quem espalhava a doença. Outros bradavam que não se devia fazer nada, que poderia prejudicar a liberdade. Mas logo perceberam que nenhuma das duas soluções resolveria o problema.
O comitê da cidade composto de poder executivo, legislativos, associações de moradores e empresários resolveram então criar quatro linhas de defesa.
Primeira linha: cuidar das estradas por onde a doença circula
Os especialistas contratados a peso de ouro pela municipalidade concordaram com o que os pesquisadores locais já vinham alertando: que boatos não se espalham sozinhos. Eles usam estradas muito eficientes: os algoritmos das redes sociais. Como são, em geral, uma caixa preta, é muito difícil que se consiga entender como funcionam e como controlá-los.
Pensando em termos de liberdade, essa prática tão duramente conquistada, decidiram que, em vez de determinar o que cada cidadão pode ou não dizer, a cidade deve exigir que os donos das estradas assumam responsabilidade por sua manutenção. Se uma estrada estiver favorecendo acidentes, por exemplo, ela precisa ser corrigida. Além disso, para garantir isenção, engenheiros independentes passaram a fiscalizar essas estradas para entender por que certas mentiras viajam mais rápido do que os fatos.
Segunda linha: fortalecer o sistema imunológico das pessoas
Os cientistas alertam que nenhuma cidade consegue impedir que todos os vírus entrem. Para tanto se criaram políticas públicas de saúde, onde se investe na imunidade dos moradores. Como funciona? As escolas passaram a ensinar como reconhecer golpes, manipulações emocionais e imagens falsas. Pessoas de todas as idades puderam aprender a pensar de forma crítica, não apenas no modo analógico, em papel, mas principalmente no digital. As pessoas aprenderam a desconfiar antes de compartilhar. É como uma vacina: quando o engano aparece, o cérebro já reconhece seus sinais.
Ensinar é sempre melhor que proibir, já diziam os sábios mais idosos da cidade. Os mais velhos descobriram que sua experiência ajudava a identificar armadilhas emocionais. Os mais jovens ensinavam como elas se espalhavam no ambiente digital. Aos poucos, a cidade percebeu que combater a desinformação exigia menos disputa entre gerações e mais cooperação entre elas. Este círculo de troca de saberes que foi além do objetivo inicial e trouxe mais união entre os habitantes, chegou a repercutir nos índices de saúde de todos.
Terceira linha: fortalecer os médicos e laboratórios
Mas apenas ensinar não basta, já que a doença pode surgir quando menos se espera. Quando surge uma dúvida sobre uma enfermidade, a população precisa saber em quem confiar. Mas imagine se uma cidade fica sem médicos, sem laboratórios e sem pesquisadores. O que fazer? É como ter um problema de saúde sem postos nem hospitais. O mesmo acontece com a informação. Quando o jornalismo local desaparece e a ciência fala apenas para si mesma, abre-se espaço para rumores.
Jáboacara decidiu investir em manter vivos seus centros de verificação da realidade. A cidade decidiu apoiar instituições comprometidas com métodos transparentes de apuração, capazes de corrigir erros e tornar públicos seus critérios de análise. É como aquela velha história que se repete: se um lado diz que chove, e o outro diz que não, cabe ao centro de verificação abrir a janela e ver se de fato está chovendo ou não.
Quarta linha: criar regras claras para as emergências
Mas e quando surge uma crise? Neste caso as autoridades entenderam que precisavam agir. Mas não bastava agir rápido, era preciso que cada decisão não fosse improvisada, ou parte da população deixaria de confiar nelas. Por isso, a cidade estabeleceu de forma transparente e coletiva regras objetivas antecipadamente: o que é fraude, o que é manipulação, quais comportamentos serão punidos e quais permanecem protegidos pela liberdade de expressão. Ou seja, Quanto mais previsíveis as regras, menor a sensação de perseguição. E o mais importante: estas regras valem para todos, não importa se sejam pobres ou ricos, importantes ou anônimos.
Conclusão
Jáboacara se tornou exemplo em Orabutã e sua receita de aprendizado da cidade foi simples: combater a desinformação não depende de um único herói, de uma lei milagrosa ou de censurar adversários.
Os moradores de Jáboacara aprenderam que a verdade é parecida com uma praça pública. Se ninguém cuida dela, o mato cresce, as placas desaparecem e os caminhos se confundem. A mentira nunca deixou de existir. Mas encontrou menos atalhos. E quando voltava a surgir, a cidade já sabia reconhecê-la antes que se transformasse em epidemia.
Uma fábula? Pode ser. Mas pode ser real também. Basta Pensar.
Seguimos pensando.


Se tiver montanhas ao redor, já estou pensando em me mudar para Jáboacara.