Esquizofrenia coletiva

Atenção para spoiler: o texto não é um estudo científico sobre esquizofrenia. Portanto, não recomendo a leitura se você chegou até aqui com esse tipo de interesse. O texto trata de um mal que acomete parcela da população brasileira desde 2018.

Em uma rápida pesquisa sobre a esquizofrenia encontramos que ela é caracterizada, dentre outros distúrbios, por pensamentos ou experiências que parecem não ter contato com a realidade. E, particularmente, essa é a parte que nos interessa.

Recente caso, protagonizado pela atriz Regina Duarte, é paradigmático. A atriz publicou, em suas redes sociais, uma imagem do presidente Bolsonaro acompanhado de uma imagem de Jesus Cristo tendo, com uma criança apoiada no pescoço e segurando a mão do presidente, em uma caminhada pelos corredores do hospital, onde passou dois dias fazendo exames, após, segundo divulgado, a ingestão de camarão sem a devida mastigação.

Imagem publicada pela atriz Regina Duarte

A imagem, por razões óbvias, foi “detonada” pelos internautas. O também ator José de Abreu publicou a imagem original:

Imagem publicada pelo ator José de Abreu

Não obstante tudo isso, a atriz retornou a público para garantir que a imagem era verdadeira: ““Me disseram que é “ FAKE”. Mas eu não acreditei. É vero! … pra mim é vero!” (diversas fontes na internet, inclusive grandes jornais).

Certo, o caso da atriz é extremo. Indica, a depender de avaliação psiquiátrica, uma urgente internação.

O caso nos remete, no entanto, a um surto coletivo de esquizofrenia que acomete, em maior ou menor intensidade, uma parcela da população brasileira que insiste, consciente ou não, em não ver a realidade do Brasil, insistindo que o governo Bolsonaro está sendo o melhor que tivemos na história da República.

Não se trata aqui da quantidade imensurável de mentiras e “fake News” que ele divulga (devidamente atestadas por levantamento do site “Congresso em Foco”: 6,9 mentiras por dia em 2021, aqui). Não se trata do insistente negacionismo diante da maior pandemia que o mundo está passando ou dos já mais de 620 mil brasileiros mortos pela COVID-19. E mesmo das mais de 300 crianças mortas.

Não, trata-se de resultados econômicos e sociais das suas ações e, principalmente, das suas omissões.

Voltamos a um patamar de absurdo de insegurança alimentar. Dados de 2020 apontam 120 milhões de brasileiros com insegurança alimentar leve ou moderada e 20 milhões na forma grave. Inflação, juros e desemprego nas alturas. PIB em queda vertiginosa. Mais de 620 mil mortes por COVD-19. Desmatamento da Amazônia, garimpos ilegais e desmantelamento de estruturas públicas de controle e fiscalização (serviço público em geral) em diversas áreas. Desinvestimento em ciência e tecnologia. Reforma trabalhista que não gerou empregos, a lista é grande (*)…

 Indicadores bons? Sim, tivemos: nunca tantos ricos ficaram mais ricos (“Brasil tem 40 novos bilionários em 2021, diz Forbes”); bancos com lucros recordes. A lista é pequena…

O principal detalhe (sintoma) da esquizofrenia é que a maioria das pessoas que defendem o governo se encontram atingidas pelo primeiro grupo, ou seja, dos péssimos indicadores, e mesmo assim parecem não enxergar a realidade.

A demonização de tudo e todos que não “concordam” com o governo; a idiossincrática e anacrônica criação de uma fobia ao “comunismo” (algo que não sai da cabeça dos militares e de alguns civis desde os primórdios do século passado), as tentativas de golpes; a crescente deslaicização do estado e tantas outras ações e comportamentos são o espelho da esquizofrenia coletiva que tomou conta dessa parcela da população brasileira.

O Brasil vive, desde 2018, a pior época sob quaisquer aspectos, mas esquizofrênicos comandam o país.

(*) Vide: Balanço Folha de São Paulo

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Luiz Afonso Alencastre Escosteguy

Apenas o que hoje chamam de um idoso. Parodiando Einstein, só uma coisa é infinita: a hipocrisia. E se você precisou saber meu "currículo" para gostar ou não do que eu escrevo, pense bem, você é sério candidato a ser mais um hipócrita!

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