Ansiedade


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tum-tum tum-tum tum-tum

As minhas mãos começam a suar, meu coração parece uma escola de samba. Roo as minhas unhas numa vã tentativa de aliviar a angústia. Parece que todos estão me julgando. Aliás, tenho certeza disso. Eles estão nesse exato momento avaliando o fracasso que eu me tornei. Estou atrasada. Quantas pessoas com a minha idade já criaram ONGs e aplicativos de sucesso e eu estou aqui. Uma encostada. Não sei bem o que fazer da vida. Certamente sou o desgosto da família. Os pensamentos sobem da minha barriga até o meu pescoço e me sufocam. Eu nem sabia que os pensamentos surgiam na barriga, mas até que faz sentido. Quando estou quase morrendo de tanta angústia percebo que nem estou mais respirando. Paro e tento respirar. Mas aí já era. Essa falta de ar, eu sei o que é isso. Quando eu me conscientizo da ansiedade é ainda pior. Puta que pariu. Não acredito. Eu estava tão bem. A minha mão tá até tremendo. Será que algum dia eu vou conseguir me livrar disso? Será que algum dia eu vou ficar bem de verdade? Será que eu tô fazendo tudo errado? Eu nunca vou conseguir. E depois que os meus pais morrerem, quem vai me aguentar? Isso é demais pro meu namorado. Ele não vai saber lidar e vai me largar. Com certeza. Eu só queria que alguém me pegasse no colo e resolvesse todas as minhas pendências. Ou então eu queria sumir. Ir pra algum lugar bem longe onde eu não conheça ninguém e ficar lá. Trancada num apartamento. Sem responder mensagem nem atender ligação. Sem ninguém saber o que eu to passando. Mas a vida não é assim. A gente tem que sair. Tem que trabalhar. Tem que estudar. Tem que sair com os amigos. Tem que visitar a família. É tanto “tem que” que dá vontade de desistir. Eu não vou dar conta mesmo. Se eu já tô nessa merda agora, imagina quando eu tiver uma casa. Um filho. Uma empresa. Um cachorro que seja. Não vai dar. Puta merda. Olha a hora. O dia passando e eu não fiz nada. Abro o Instagram e começo a sessão de tortura. Mil pessoas perfeitas. Com vidas perfeitas. Fotos perfeitas. Trabalhos perfeitos. Ângulos perfeitos. Lugares perfeitos. Filhos perfeitos. Amigos perfeitos. Tá todo mundo bem e eu to aqui na merda. Meia hora se passou e eu continuo vendo a vida perfeita da nora da tia da participante do BBB 2015. Nem sei como eu cheguei aqui, nem sei quem é essa mulher. Só sei que a vida dela é melhor que a minha. Estudar não tá me adiantando de nada. Eu devia ter investido mais tempo na academia e virava musa fit. Ou eu devia ter estudado mais, participado de mais congressos, publicado pelo menos uma porra de um artigo. Nem isso.  A ansiedade toma conta de mim e me paralisa. Eu não consigo fazer nada. Mas eu quero fazer tudo. Eu tento sair de casa pra tomar um ar. Dizem que é bom. Mas na rua todos me olham. São tantos estímulos visuais. É tanta coisa, bolsinha no camelô, pessoas andando, carro saindo da garagem, faixa de pedestre, vitrine de loja, pessoas dormindo na rua. As imagens começam a me deixar tonta. E imediatamente eu sinto vontade de voltar pra casa. Mas não tem nada pra comer lá. Era bom passar no mercado. Mas aquele frio das geladeiras. A fila. Os carrinhos. Os preços. A confusão no corredor. Aquele cara gritando as promoções no alto falante. Tudo parece assustador. Volto pra casa. Continuo angustiada. Queria ter uma gripe. Uma febre daquelas. Que pelo menos assim as pessoas enxergam e entendem que você tá mal. Por fora eu to rindo. Se encontrar alguém na rua falo que tô bem. Mas por dentro parece que vou explodir. Parece que a coisa tá crescendo tanto que não vai mais caber ali dentro.

Não fiz absolutamente nada mas pensei em absolutamente tudo. Aqui não tem moral da história. Tem um sofrimento invisível. Uma angústia do caralho. Aqui não tem final. É um looping infinito.

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beaschau

Apenas mais um mamífero com telencéfalo altamente desenvolvido que decidiu largar o Direito para cozinhar e escrever.

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