Hypocrisis By Luiz Afonso Alencastre Escosteguy / Share 0 Tweet Com o advento da Lei nº 14.423, de 2022, não temos mais idosos no Brasil, mas apenas pessoas idosas. Essa lei alterou o até então chamado Estatuto do Idoso, vigente desde 2003. Há, no entanto, uma grande dificuldade, na sociedade, na adoção da nova nomenclatura. Muito pelo hábito já em parte arraigado, muito pelo desconhecimento da mudança legal e, quiçá, muito pela facilidade que a palavra idoso proporciona. Uso o termo idoso como o genérico neutro da língua portuguesa. Entenda-se abarcar todos os gêneros. Mas existe diferença? Sim, existe, e muita! Antes de explicar essa diferença, convém lembrar que temos três referenciais, um para a pessoa, outro para a etapa da vida e um terceiro para definir o que, erroneamente, chamam de preconceito. Para a pessoa, usualmente nos referimos como um idoso; para a etapa da vida existem alguns termos, nenhum deles adequados: terceira idade, melhor idade, velhice, etc. E etarismo para referir ao preconceito contra idosos. E qual o problema com esses termos? São limitados, limitantes e excludentes. Idoso é termo que rotula as pessoas tão somente pela idade. Passou dos 60 anos? É idoso. Por essa razão torna-se limitante. Define (limita) uma pessoa somente ao aspecto etário. É limitado, pois não considera as enormes diferenças entre quem tem 60, 70, 80 ou mais anos. São realidades completamente diferentes que o termo idoso exclui. Terceira idade, melhor idade, velhice, além de termos que beiram o jocoso – e por vezes quase ofensivos, buscam encobrir a realidade: é, talvez, a etapa da vida com os maiores desafios que as pessoas costumam enfrentar. De problemas de saúde, incapacitações físicas, cognitivas e psicológicas até abandonos, depressão e, o que é pior, com altas taxas de suicídio. Etarismo. Um termo que leva as pessoas a pensarem, invariavelmente, em preconceito contra idosos. Nada mais limitante, pois além de usar um conceito “errado” para preconceito, no mais das vezes confundindo com discriminação, não permite ver que a questão, na realidade, se refere, também, a outras faixas etárias, notadamente aos jovens. E o que devemos fazer? Paradigmas são, em geral, hábitos sociais adquiridos. Há que adquirir novos hábitos, mudar a forma como nos referimos a esses referenciais. Pessoa idosa no lugar de idoso, envelhescência no lugar das expressões terceira idade, melhor idade, 60+ (ou a mais atual comercialmente referida, 50+) ou velhice e idadismo no lugar de etarismo. Por que pessoa idosa e não idoso? A razão é simples e clara: a expressão pessoa idosa coloca o foco na pessoa e não na idade. E ao colocar o foco na pessoa, além de não limitar ao aspecto idade, considera todos a complexidade que uma pessoa possui como ser humano e, principalmente, a dignidade da pessoa humana e sua individualidade. Não é limitante e é includente. Envelhescência é um termo que, assim como adolescência, remete a um processo, a um tempo de passagem, de transformações. Se a adolescência é vista como um período de aprendizagem, de preparação para a vida adulta, a envelhescência é o período de preparação para o final da vida. Se é assustador encarar se tornar adulto, não menos assustador é encarar a finitude. Se a adolescência é curta, a envelhescência pode ser longa. Idadismo e não etarismo. O conceito de idadismo, ao contrário do conceito de etarismo, é amplo, portanto não limitante, e inclusivo, pois permite ver que jovens também são atingidos pelo rótulo da “idade”. Idadismo se assenta no tripé estereotipo, preconceito e discriminação e na interdependência entre os três. E ao considerar esse tripé é possível desenvolver ações já desde a infância, que é a fase onde os estereotipos são formados (ideias e conceitos que formamos a respeito de pessoas, grupos ou a si mesmo). Estudos indicam que já a partir dos 4 anos começamos a formar estereotipos a respeito de outras pessoas, principalmente em relação aos mais velhos. E esses estereotipos são formados pela ação das famílias e escolas. Preconceitos são os sentimentos que desenvolvemos a partir dos estereotipos e que com eles crescemos e passamos a julgá-los como naturais. E é a partir dos sentimentos – preconceitos – que partimos para a discriminação, para as ações contra as pessoas ou grupos e, até mesmo, contra nós próprios. Adotar o conceito de idadismo implica em poder realizar ações que comecem por combater onde tudo começa: na infância, pois, sem dúvida alguma, é difícil – mas não impossível, claro – mudar adultos que já têm por natural a pratica da discriminação. Adotar o idadismo permite realizar ações para combater a discriminação contra os jovens que iniciam a vida adulta muitas vezes com dificuldades de conseguir emprego pelo simples fato de serem jovens. Inexperientes. Inaptos ainda. É difícil a arte de mudar paradigmas, mas devemos começar. E começar mudando a forma como nos referimos socialmente às realidades da vida. Pessoa idosa, idadismo e envelhescência. Devemos começar agora para que as futuras gerações não sejam mais vistas como velhas, idosas e continuem sofrendo preconceitos.
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