Ainda que em nossa grande imprensa existam uns poucos jornalistas que se dedicam ao ofício com a necessária isenção, a regra em nosso país tem sido outra. Boa parte dos profissionais age em defesa de interesses políticos ou mesmo outros que não os da verdade factual.
Ainda que em nossa grande imprensa existam uns poucos jornalistas que se dedicam ao ofício com a necessária isenção, a regra em nosso país tem sido outra. Boa parte dos profissionais age em defesa de interesses políticos ou mesmo outros que não os da verdade factual.
Se não, vejamos. É patente na imprensa paulistana a enorme diferença de tratamento dispensada ao governador paulista Serra e ao presidente Lula. Se por um lado Serra conta com enorme boa vontade da mídia, Lula é alvo de tratamento em tudo inverso.
É aí que a porca torce o rabo. Empresários da comunicação e jornalistas tem todo o direito de ter suas preferências partidárias. O problema, porém, é quando essas escolhas políticas desvirtuam por completo uma prática profissional onde isenção e credibilidade se fazem necessárias.
Já faz muito tempo que a maioria absoluta dos jornalões não tem a menor boa vontade com Lula. Sobre o presidente, sempre que possível, respingam acusações as mais várias e estapafúrdias, em uma severidade de tratamento inobservada em relação a outros políticos. O último dos “escândalos” – fabricados e/ou amplificados pela imprensa – envolveu o suposto (provavelmente inexistente) grampo telefônico sobre Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal.
José Serra, por outro lado, nada de braçada na mídia. Contou com toda a boa vontade dos jornalistas para que as mortes ocorridas na ampliação do Metrô passassem em brancas nuvens – postura diversa da observada quando, ainda no asfalto molhado de Congonhas, culparam Lula e seu governo pelo acidente do avião da Tam. Essa mesma boa vontade em favor de Serra se estendeu ao pupilo Kassab, por ocasião do desabamento de viaduto em construção (por sorte o desastre aconteceu de noite e não ocasionou mortes).
Ainda que Kassab, protegido de Serra, conte hoje com a boa vontade da imprensa – a ponto de esta abandonar o ex-governador e ex-candidato a presidente Alckmin, outrora vendido a leitores como “gerente” – , é inegável que há tempos é José Serra quem mora no coração dos fazedores de jornal paulistanos, que o privilegiam sabe lá Deus por quais interesses em detrimento da informação.
Palavras exageradas as minhas? Pois vejam só o que acontece aqui na capital paulista e que anda sendo ignorado pelos jornais. Eu estava fora da cidade e regressei no último dia 23. Na volta, no caminho para minha casa, tive que desviar meu caminho, pois havia uma passeata de policiais civis em greve.
Um parêntese: estado mais rico da nação, São Paulo paga o pior salário do país para um delegado em início de carreira; somados os benefícios, R$3.708. Os investigadores não estão em situação muito melhor, com vencimentos de R$1757 – 15.º lugar no ranking estadual. Não que este estado de coisas seja culpa exclusiva de Serra; afinal, desde Mário Covas os governadores tucanos metem os pés pelas mãos em política de segurança.
Pois bem. Acompanhando a imprensa, vi naqueles dias umas poucas referências à greve. Depois, e até hoje, mais nada, ou quando muito umas poucas linhas. Foi por isso, e até por falta de lembrança da greve, que na última sexta encaminhei uma cliente a um distrito policial para lavrar um boletim de ocorrência. Para minha surpresa, minha cliente ligou e avisou: a polícia civil ainda está em greve, o que impediu o registro da ocorrência!
Não, não que São Paulo seja uma cidade assim tranqüila. Precisamos da polícia, e muito. Também por isso, injustificável o silêncio da imprensa ante a greve da polícia civil do estado.
Adicionalmente, como pano de fundo a uma greve já bastante longa, São Paulo assiste a uma das mais disputadas eleições de sua história. A perspectiva de que a imprensa dê o devido destaque ao movimento parece ainda mais improvável no momento em que Serra luta para reeleger seu fiel aliado Kassab como prefeito da cidade.
O silêncio da imprensa é não apenas constrangedor, mas também vergonhoso. Ou alguém acredita que os jornalões se calariam ante uma greve da polícia federal? De todo modo, apesar de inconformado, não me surpreendo, pois jamais poderia esperar coisa melhor de uma imprensa manipuladora, mais preocupada com factóides que com notícias.
O melhor uso para Estadão ou Folha? Não, não embrulhe peixe. Use de forro na gaiola dos passarinhos. Por certo os canários farão o serviço sujo, porém justo.
É o que poderíamos chamar de "pauta vigarista"... Deve ser triste formar-se em jornalismo e ter que se dobrar à força de um órgão de imprensa que paga nosso salário. Publicar somente o que nos é ordenado quando temos entalado na garganta um grito contra o cerceamento estupidificante da informação.
Belo texto, Ricardo. Uma verdadeira pérola do jornalismo contra-a-corrente. Segue nosso trabalho para fazer que mais pessoas sejam tocadas por pontos de vista alternativos aos sucitados pela mídia comprometida com interesses secularmente determinados.
Não há mal algum em um veículo de comunicação ou um profissional de imprensa adotarem posicionamentos políticos e que este posicionamento sirva como orientação editorial ou pauta. Na verdade, a ausência de posturas políticas na imprensa apenas colabora para a transformação da mídia em uma maçaroca insossa de informação de utilidade questionável.
Pensar que um veículo de comunicação não assuma posturas políticas de seu interesse é irreal. Ele tem interesses políticos e econômicos que, além da teoria, se debruçam sobre a informação. Da mesma forma, imaginar que um jornalista seja um poço de isenção e que não se deixe influenciar por suas convicções, é igualmente ingênuo.
O grande problema não é o posicionamento ideológico de jornais e jornalistas, mas o fato de a maioria deles não assumir isso publicamente.
Victor, o uso dois pesos e duas medidas compromete a atividade jornalística. Em SP é notável o destaque aos desmandos dos petistas e a ocultação das sujeiras dos tucanos. Pouco se fala no caso Alstom ou da longa greve da polícia estadual; do mesmo modo, associaram Lula ao desastre da Tam e dissociaram Serra-Alckmin do desastre do metrô.
É indiferente assumir ou não uma preferência política. A questão é esta preferência resultar em tratamento desigual: o jornalismo deixa de ser jornalismo e se torna mera propaganda.
Hoje, não há uma 'ausência de posturas políticas na imprensa'; ao contrário, o excesso destas, mais a partidarização e parcialidade, fazem de nossa grande imprensa uma verdadeira vergonha.
Entendo seu ponto de vista Ricardo. É que não creio em uma imprensa isenta (do ponto de vista ideológico). Como disse anteriormente, se os veículos de comunicação (e os jornalistas) assumissem sua postura ideológica, seu relacionamento com o leitor seria mais honesto. Qualquer veículo de comunicação direciona seu editorial para os valores que defende. Ou seja, o que você denuncia não é a exceção, mas a regra absoluta. A isenção na mídia é um mito. Veja, não estou defendendo esta realidade, estou apontando-a.
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