por Gael Libório
E satisfeitos todos, Sacóstenes tomou os pedaços que sobejaram: quatro mil, seiscentas e noventa e sete cédulas de cem, pesando um quilo e cento e setenta e quatro gramas, e as colocou num saco de lixo sem reforço, e guardou-as no armário de seu flat, ao lado do Posto da Torre, onde outrora a Lava Jato lavara outros justos.
E Sacóstenes viu que era bom.
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Sacóstenes Cavalcante, líder do Partido da Libertinagem na Câmara dos Deputados da Bruzundanga, é homem de fé. Fé no Senhor, fé na família tradicional, fé nos bons costumes e, sobretudo, fé na capacidade do eleitor bruzundanguense de engolir qualquer coisa — desde que venha embalada em versículo bíblico e indignação contra a esquerda.
Foi com essa fé inabalável que Sacóstenes, ao ser surpreendido pela Polícia Federal com quatrocentos e sessenta e nove mil e setecentos reais em dinheiro vivo no fundo do guarda-roupa, reagiu da única forma que um homem de Deus poderia reagir: gaguejando.
O dinheiro — todo em notas de cem, organizadinhas como quem arruma a gaveta de meias — repousava num saco de lixo preto, desses que se compra em rolo no supermercado. Sem reforço, sem etiqueta, sem cerimônia. Quase meio milhão de reais tratados com o mesmo carinho que se dedica a cascas de banana e guardanapos usados.
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A explicação de Sacóstenes veio em capítulos, como novela de horário nobre.
No primeiro capítulo, transmitido ao vivo e sob forte emoção, o deputado informou que o dinheiro era “fruto da venda de um imóvel”. Qual imóvel? Uma casa. Onde? Em Minas Gerais. Quando vendeu? Não lembrava bem. Para quem? Também não. Por que não depositou? Falta de tempo. A correria do mandato, sabe como é. Entre defender a família brasileira e fiscalizar o INSS, quem tem tempo de ir ao banco?
No segundo capítulo, cinco dias depois, Sacóstenes apresentou documentos para comprovar a transação. Mostrou a escritura do imóvel. Só que era a escritura de compra, não de venda. Detalhe que passou despercebido ao próprio deputado, mas não ao resto da Bruzundanga.
No terceiro capítulo, quando a internet já havia transformado seu nome em verbo (“sacostenear”: guardar dinheiro vivo em lugares inadequados), o líder do Partido da Libertinagem preferiu mudar de assunto. Voltou às redes sociais para questionar os dados do desemprego e atacar o Bolsa Família. Do saco de lixo, nem uma palavra.
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Há, no caso Sacóstenes, uma ironia geográfica que merece registro.
O flat onde a Polícia Federal encontrou o tesouro ensacado fica no coração de Brasília, num complexo de hotéis e escritórios localizado ao lado da sede do Partido da Libertinagem. E ao lado do Posto da Torre — sim, o mesmo posto de gasolina que emprestou seu nome à célebre Operação Lava Jato, aquela que prometeu acabar com a corrupção na Bruzundanga e acabou elegendo o Capitão Cloroquino.
É como se a História, cansada de sutilezas, resolvesse desenhar o roteiro com giz de cera.
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Mas o detalhe mais perturbador não é o dinheiro, nem o saco, nem a localização profética.
É a declaração de bens.
Em 2022, quando se candidatou à reeleição, Sacóstenes informou à Justiça Eleitoral possuir um patrimônio de aproximadamente cinco mil reais. Cinco mil. O equivalente a uma bicicleta usada, um sofá de couro sintético e talvez um ventilador de teto.
Três anos depois, o mesmo Sacóstenes tinha quase quinhentos mil reais em espécie no armário — dinheiro que, segundo ele, veio da venda de um imóvel que ele comprou em 2023. Um imóvel que não existia em seu patrimônio declarado. Comprado com dinheiro que também não existia. E vendido para alguém que ninguém sabe quem é, numa data que ninguém lembra, por um valor que foi parar num saco de lixo.
É o que os teólogos chamariam de creatio ex nihilo — criação a partir do nada. Ou, no vocabulário bruzundanguense, “milagre”.
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A Operação Galho Podre, que revelou o tesouro de Sacóstenes, investiga um suposto esquema de desvio de cota parlamentar. Segundo a Polícia Federal, deputados teriam usado empresas de fachada — especialmente locadoras de veículos — para receber dinheiro público por serviços nunca prestados. O dinheiro entrava limpo pela porta da frente e saía sujo pela porta dos fundos, lavado e passado, pronto para ser ensacado.
Sacóstenes, como bom cristão, nega tudo. Diz ser vítima de perseguição política. Diz que querem “manchar a direita com a lama da corrupção”. Diz que “quem não deve não teme”.
E quem não teme, aparentemente, guarda meio milhão em saco de lixo.
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Carlito Pescado, colega de partido e de operação policial, seguiu roteiro semelhante. Alegou “perseguição implacável”, bradou contra a “ditadura do Judiciário” e garantiu que não cabe ao parlamentar fiscalizar as empresas que contrata. Afinal, se um deputado tivesse que verificar se as locadoras que recebem dinheiro público realmente existem, sobrariam quantas horas no dia para defender os valores cristãos?
O ministro Flavião Dinossauro, do Supremo, autorizou a operação e apreendeu os celulares dos dois. As mensagens, dizem os investigadores, são esclarecedoras. Mas isso é assunto para os próximos capítulos.
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Enquanto isso, Sacóstenes aguarda.
Aguarda que o inquérito se arraste pelos anos, como todo inquérito que envolve parlamentar. Aguarda que o noticiário mude de assunto, como sempre muda. Aguarda que o povo esqueça, como frequentemente esquece.
E aguarda, sobretudo, que a Polícia Federal devolva seu dinheiro. Porque, segundo ele, é tudo lícito. Declarado. Conforme manda a lei.
É só que a lei, às vezes, manda guardar no banco.
E Sacóstenes preferiu o saco de lixo.
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Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com notas de cem reais é mera coincidência tributária.

